• Patrícia e Rafaela

COLUNA SINOPSES DA VIDA #1: Racismo e violência policial

Quando pensamos em produzir colunas que abordam a representação da vida concreta pelo cinema, a relação com a função da arte me ocorreu de forma instantânea.


O aspecto ficcional lúdico, cômico ou surpreendente da arte pode servir para explorar sensações e sentimentos, pode atuar como mecanismo de escape em situações que lidar com a realidade é muito difícil, tornando a arte uma forma de terapia que mantém nossa sanidade mental, dentre outras funções.


Por outro lado, a arte pode ser importante mecanismo na construção de empatia quando apresenta aspectos da vida real que precisam ser debatidos e enfrentados por meio de um personagem com quem desenvolvemos laços, o que pode desenvolver reflexões importantes


E existe ainda, uma função que muito me agrada no fazer artístico, que não corresponde apenas ao retrato da vida real de forma ficcional, como denúncia ou mero entretenimento, mas que se propõe a impactar, alterar a realidade posta.


Pensando em temas relevantes para o momento atual, não houve outra questão que não as manifestações que tomaram conta das ruas nos Estados Unidos e conquistaram o mundo, após a morte de George Floyd, em decorrência de mais um episódio de violência policial.


O episódio, trouxe à tona uma questão já antiga e consolidada referente ao racismo, especificamente, o racismo na identificação do inimigo segundo a lógica sistêmica de funcionamento do poder de polícia refletida na atuação individual dos agentes, e a própria função do poder de polícia na sociedade contemporânea.

No que diz respeito ao segundo tópico é relevante pontuar que a militarização da polícia não é a realidade em boa parte dos países ocidentais e enfrenta críticas severas de quem acredita em instituição democráticas e na limitação da violência legal por parte do Estado.


Historicamente, a perspectiva da militarização da polícia esteve conectada a uma concepção da construção de um inimigo, o “outro”, que contribui para a construção da identidade do nós, em oposição aquele que no imaginário coletivo é o infrator.


De certa forma, uma noção até mesmo intuitiva, muito bem explorada por autores como Zaffaroni, especificam uma relação de oposição na escolha dos Estados, em efetuar investimento em políticas positivas ou políticas negativas.


Assim, quando o Estado se faz presente nas comunidades de forma positiva através da implementação de políticas públicas, a necessidade da atuação do Estado enquanto força repressora diminui.


De outro lado, Estados que ignoram as necessidades mais básicas e elementares de parcela da sua população, criando massas de excluídos e marginalizados, tendem a reprimir os conflitos decorrentes de sua própria negligência por meio do fortalecimento da política repressora, normalmente com a militarização e embrutecimento dos agentes que realizam o poder de polícia.


Esta situação é muito fácil de ser identificada na arte, a exemplo de um blockbuster muito conhecido que você provavelmente já assistiu, "RoboCop" que trabalha de forma brilhante o embrutecimento das técnicas de controle e repressão pelo poder policial.

Quanto ao racismo na atuação policial, este não deixa de ser um reflexo do racismo na sociedade como um todo, que se reflete na concepção coletiva de que na identificação do outro que deve ser combatido, está o jovem negro, pobre da periferia.


A própria trajetória jurídica, do fim do tráfico negreiro, fim da possibilidade legal de possuir escravos, criminalização da mendicância, possibilidade muito recente de negros poderem possuir propriedades, demonstram uma construção histórica da desigualdade que em países como Brasil produziu marginalizados, no sentido de fora da tutela positiva do Estado, majoritariamente por negros pobres.


Quanto mais se intensifica o discurso do ódio, a normalização do racismo pelo avanço da extrema direita, maior é seu reflexo nos abusos e excessos cometidos por policiais contra a população negra.


E essa realidade descrita não está presente apenas nos Estados Unidos, o descaso institucional com a vida de pessoas negras é recorrente no Brasil. Segundo dados do Anuário da violência, 75% da população morta por policiais em 2019 era negra. Conforme dados do “mapping police violence”, dentre as 1.099 pessoas mortas por ação policial nos Estados Unidos, 259 eram negras. Ao analisar os dados referente ao mesmo período no Brasil, das 5.804 pessoas mortas 4.533 eram negras. Dados do Infopen apontam que mais de 60% da população carcerária no Brasil é negra.

Diante de tal realidade, trazendo para a arte, filmes como: “Nós” de Jordan Peele cumpre a função transformadora da arte de forma sensacional; “Corra!” do mesmo diretor, denuncia a cultura racista internalizada, “Faça a coisa” certa de Spike Lee apresenta uma denúncia extremamente importante; “Selma” de Ava Duverney, alerta para o fato de que a pouquíssimo tempo, pessoas negras não possuíam nem mesmo direitos formais pela legislação vigente contextualizando historicamente a nossa realidade, “Os Miseráveis” de Ladj Ly apresenta o racismo na atuação policial; e séries como “Olhos que condenam”, também de Duverney, retratam a realidade de medo constante e discriminação enfrentada pela parcela da população criminalizada pela cor de sua pele.


Vivemos um momento tão duro e difícil em função das mortes pelo Covid-19, agravado pela falta de políticas de combate e contenção pelo governo federal, mas por mais duro que seja para todos, é a população mais frágil, negra e índia, a que mais sofre.


Da mesma forma, a discriminação e violência decorrente do avanço da extrema direita também estoura na mesma parcela da população.E para quem quer compreender um pouco melhor o “ressurgimento” da Ku Klux Klan, os últimos 10 minutos do filme “Infiltrado na Klan” de Spike Lee é sensacional.


Talvez nesse contexto a arte de denúncia e transformação seja, por ser uma forma de luta em um mundo tomado pela ignorância e desinformação, uma forma de terapia e alento de que não estamos sozinhos.


Beijos, Rafaela. L.

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