• Patrícia e Rafaela

CRÍTICA: Destacamento Blood

Mais um filme crítico, ácido, cheio de referências, com uma bela estética peculiar e com muita alusão a fatos reais do cineasta Spike Lee


Em um ano com poucos lançamentos cinematográficos, com filmes tão aguardados sendo adiados, a expectativa sobre o novo filme de Spike Lee, que chegou a netflix no dia 12 de junho, “Destacamento Blood”, era muito alta. E após conferir a nova obra do celebrado diretor não posso deixar de sentir que a espera valeu a pena.

Lee, ativista de movimento anti-racista, em todas as suas obras, de forma mais ou menos explícitas problematiza a questão. Seu penúltimo filme “Infiltrado na Klan” - para quem quiser conferir tem crítica aqui no blog - trouxe popularidade a sua obra que já era recheada de filmes incríveis como “Faça a coisa certa” e “Malcom X”. Ainda, “Infiltrado na Klan” lhe rendeu a atrasada e merecida indicação a Melhor Diretor no Oscar e o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado.


Para quem conhece os filmes de Spike Lee, sabe que o diretor traz um aspecto documental a sua obra com a utilização de imagens reais em meio a ficção. Em “Infiltrado na Klan”, o recurso narrativo, empregado nos últimos minutos do longa, cria o ‘link’ entre o fato histórico retratado e os dias atuais de forma brilhante. No seu novo filme, o diretor volta a utilizar a mesma ferramenta, dessa vez com maior frequência. A nova obra é inaugurada com uma série de imagens chocantes que mostram o racismo e luta anti-racista nos Estados Unidos nas décadas de 60 e 70, incluindo a questão dos negros na Guerra do Vietnã.


E com as imagens reais, que invocam aspectos documentais, Lee insere o espectador no universo sócio-político que pretende abordar, sendo que o final, onde mostra o movimento #blacklivesmatter nos dias atuais, traz a conexão da temática histórica com a atualidade, que não poderia deixar de ser mais atual, diante dos fatos ocorridos nas últimas semanas, com o assassinato de George Floyd por um agente policial nos Estados Unidos.

"Destacamento Blood" não possui uma história narrativa tão original, está na forma de Lee contar a história e no recorte etário/racial escolhido, o diferencial em relação a tantos outros filmes sobre a Guerra do Vietnã. No filme, temos quatro veteranos negros, que voltam ao Vietnã para recolher o corpo do líder do destacamento a que pertenciam e localizar um tesouro enterrado.


O falecido membro do grupo Stormin’ Norman, interpretado por Chadwick Boseman (Pantera negra) em flashbacks, foi uma espécie de mentor para os veteranos, tendo impactado a vida dos quatro de formas diferentes. Assim, para o desenvolvimento da narrativa, o filme é construído em três atos: o reencontro dos veteranos, a busca no meio da mata e o final.


No que diz respeito à narrativa, um dos veteranos se destaca, o controverso Paul, representado por Delroy Lindo, que esperamos que seja lembrado na temporada de premiações. Paul o mais impactado pela morte de Stormin’ Norman, claramente sofre de transtorno pós-traumático, tem problemas na relação com o filho que também se junta ao grupo em sua aventura e de forma muito contraditória reproduz um discurso ideológico racista ao defender a construção do muro para separar os Estados Unidos do México, ter votado em Trump e usar o boné com os dizeres “Make America Great Again” movimento fortemente nacionalista e racista.

Ter um personagem, como Paul, mostra que Lee se preocupa em trabalhar a questão racial de forma complexa, uma vez que existem oprimidos que compram o discurso de seus opressores, com uma noção distorcida de nacionalismo, sem se dar conta que a política defendida, também se volta contra ele. E os dois monólogos do personagem são sensacionais, tanto no roteiro, na fotografia e na atuação.


Sobre a fotografia, esta é certamente um dos méritos do filme. Utilizando transições de formato e filtro de cores, para em cenas reais trazer aspectos de documentário, em flashbacks se aproximar da ideia de cenas reais e ao mesmo tempo fazer referência a filmes antigos como “Apocalipse Now”, (diga se de passagem o filme é cheio de referências ao cultuado longa de guerra de Francis Ford Coppola) e nos dias atuais abusar de cores nos momentos felizes iniciais e nos transportar para as dificuldades enfrentadas na jornada em meio a mata do Vietnã.


Falando em referências a “Apocalipse Now” que evoca o heroísmo dos veteranos ali retratados, temos o helicóptero voando com um sol alaranjado no fundo, o uso na trilha sonora da “Cavalgada das Valquírias” de Richard Wagner (que você pode conhecer de Star Wars), a travessia de barco, um dos monólogos de Paul dentre muitos outros momentos.


A verdade é que assistir um filme de Spike Lee é um convite a estudar a arte e a cultura referenciada pelo diretor. Outro aspecto muito bom, com referências a cultura negra, é a trilha sonora. Com jazz e funk, muito Marvin Gaye (inclusive uma cena linda e impactante acontece com uma música quase a capela do cantor).

Apesar do inquestionável talento técnico presente na obra, muitas críticas têm sido feitas a retratação da cultura vietnamita, especialmente nos dias atuais. Também tem sido criticada a caricatura e superficialidade dos personagens, especialmente os dois veteranos que tem menor tempo de cena e o didatismo do diretor, essa uma crítica mais antiga a sua forma de narrar uma história.


Sobre a representação do Vietnã, sinceramente não me sinto apta a refletir, porque não a conheço. Entretanto, reconheço que Lee usa da caricatura na construção de seus personagens, o que apenas enriquece quando se trata da cultura negra e Lee está em seu lugar de fala. Assim, quando o diretor usa o mesmo recurso, para a construção da personalidade dos seus personagens principais certamente ele pode acabar sendo insensível com a cultura alheia, no caso de um povo que sofreu e sofre as consequências de uma guerra sem sentido (como exemplo da questão, uma cena pontuada é a do menino que assusta os veteranos em estalinho na saída do restaurante). A verdade é que Lee contou a história, também apagada, dos soldados negros na guerra toda a sua narrativa é voltada a essa finalidade.


Quanto a caricatura e superficialidade dos personagens, acredito que assim como comentei no parágrafo anterior, o aspecto caricatural é o que traz um pouco de comédia e é um dos aspectos sensacionais das obras de Lee. Quanto a superficialidade dos personagens, acho que faltou atenção aos detalhes para quem não entendeu a complexidade dos veteranos.

Por fim, sobre o didatismo, acho que sempre é negativo quando o diretor subestima o espectador e explica sua própria narrativa, mas não é isso o que Lee faz. Spike Lee relaciona os aspectos ficcionais de sua obra com fatos reais pouco conhecidos, uma vez que busca dar visibilidade a história dos excluídos. Assim, o recurso, talvez didático, de apresentar imagens reais para reforçar a narrativa histórica que acompanha a ficção ao meu ver, é um dos traços marcantes da obra do diretor e não serve a subestimar seu espectador, até porque as várias referências utilizadas pelo diretor deixa claro que um certo conhecimento prévio é um requisito para entender de fato a sua obra.


Acho que a frase de Muhammad Ali que abre o filme e a frase de Martin Luther King Jr. que o encerra, reproduz muito bem o que Lee demonstra ao longo do filme:


Muhammad Ali em 26 de fevereiro de 1978: “Minha consciência não permite atirar em meu irmão, em gente de pele mais escura, ou pobre e famintos, para a poderosa América. Por que atiraria neles? Eles nunca me chamaram de ‘crioulo’, nem me lincharam, não me atacaram com cães, nem roubaram minha nacionalidade”


Martin Luther King Jr. em 4 de abril de 1967: “… para salvar a alma da América. Sabíamos que não podíamos limitar nossa visão a certos direitos para as pessoas negras. Em vez disso, reforçamos a convicção de que a América nunca seria livre ou salva de si mesma, até os descendentes dos escravos serem completamente libertos dos grilhões que ainda usam. De certa forma, concordamos com Langston Hughes, o bardo negro do Harlem, que escreveu: ‘ah, sim, eu afirmo que a América nunca foi a América para mim mas eu juro a América ainda será!’”

Mais do apenas mais um filme sobre a guerra do Vietnã, “Destacamento Blood” mesmo que controverso, nos presenteia com a visão única de Spike Lee, questionando o papel do negro nas guerras americanas e deixando muito claro que sim, vidas negras importam e precisamos enxergar isso enquanto sociedade.



Beijos, Rafaela L.


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