• Patrícia e Rafaela

CRÍTICA: O Poço

Atualizado: Mai 30

O novo Terror distópico da Netflix, equilibra elementos psicológicos e horror gore, causando em seu espectador medo, ansiedade, expectativa, nojo e desespero na medida certa


O Poço, se propõe a narrar uma história que questiona a desigualdade social e suas mazelas sem maniqueísmos e dicotomias, nos fazendo refletir sobre os limites da nossa própria solidariedade e a urgente necessidade de racionar os recursos do planeta

Pensar na função do cinema e nas emoções que um filme intencionalmente ou não desperta em seu público, pode ser um exercício controverso e ilimitado. Dentre infinitas possibilidades, existem filmes belos, filmes leves, filmes inspiradores, filmes tristes, filmes assustadores e existem aqueles filmes chocantes, que nos deixam completamente paralisados e nos fazem refletir.


Confesso que ainda não encontrei um gênero cinematográfico que não me agrade ou emoções indesejadas a partir de uma narrativa artística. Talvez, para mim, o filme a ser assistido é aquele que combina com o meu estado de espírito ou que evoque sentimentos necessários.


Dito isso, “O Poço” não é um filme fácil, não é um filme leve, não serve apenas como entretenimento ou distração, por isso, se você está frágil emocionalmente com a reclusão, a economia, ou milhares de outros aspectos da vida que nos adoece, talvez, esse não seja a melhor pedida nesse momento, nesse caso, aconselho guardar a indicação para outra hora.


Porém, para quem quer ser tirado de sua zona de conforto, assistir algo diferente em meio a tantos blockbusters que reciclam a mesma fórmula, esse filme é uma das primeiras indicações que posso lhe oferecer. Uma dica: esteja alimentado e esqueça a pipoca, é impossível se alimentar enquanto assiste ao filme.


Retornando as sensações, “O Poço”, muito comparado a "Parasita” pela crítica social, entrou para a minha lista de filmes inteligentes e angustiantes, me trazendo sentimentos que nenhuma obra cinematográfica trazia desde “Mãe” (outro filme impactante que aconselho a todos assistirem).


Criticado por alguns e enaltecido por outros, o primeiro longa metragem do diretor espanhol Galder Gaztelu-Urrutia, estreou no Festival Internacional de Cinema de Toronto em 2019, recebendo o prêmio People’s Choice Midnight Madness e chamando a atenção da gigante de Streaming, Netflix, que adquiriu a obra promovendo a sua distribuição. O filme foi ainda, indicado ao Goya nas categorias de Melhor Diretor Revelação e Melhor Roteiro Original, sendo o vencedor do principal prêmio do cinema espanhol na categoria de Melhor Efeitos Especiais.


Estrelado por Iván Massagué no papel de Goreng, um homem que se encontra em uma prisão vertical chamada de poço, onde a cada andar estão alojadas duas pessoas que são alimentadas por uma plataforma que fica apenas dois minutos em cada andar. Assim, os de cima podem se esbanjar e os debaixo dependem da sorte. A premissa pode parecer simplista, entretanto, o roteiro possui uma profundidade e quantidade de metáforas para pensar diversos aspectos da sociedade e dos indivíduos que a compõe.


E não é à toa que o filme é classificado como terror com elementos gore (uso de violência gráfica) isto porque, o uso da violência, que nos causa nojo e repulsa, não é aleatório, exagerado ou sádico, mas cumpre sempre uma função na construção da narrativa.


Obra com grande simbolismo e abstração, deixa margem para diversas interpretações, tornado a experiência de assisti-la riquíssima, porém, tão ricos quanto são os diálogos que podemos travar a partir do filme.


Daqui em diante aconselho a leitura apenas para quem já assistiu o filme, se ainda não assistiu, assista e depois volte para conhecer nossas impressões e nos contar as suas.


ALERTA SPOILER


De início somos apresentados a cozinha, um lugar claro (por sinal uma das únicas cenas em que vemos claridade no filme), limpo, com funcionários em vestes igualmente claras, cozinhando de forma meticulosa as mais diversas iguarias ao som de violino.

O requinte no processo de cozinhar é rapidamente confrontado com a realidade dura de quem está abaixo, marcado pela frase proferida por Trimagasi (Zorion Eguileor) antes mesmos de vislumbrarmos o poço: “Existem três tipo de pessoa, as de cima, as de baixo e as que caem”, àquele momento ainda não sabíamos, mas a frase inaugural sintetiza o filme.


Um aspecto interessante da obra, que conta com elementos de thriller psicológico, é o fato de que conhecemos apenas o que o personagem principal conhece. Assim, quando ele abre os olhos dentro do poço e começa a conhecer sua nova realidade, nós, espectadores, conhecemos junto com ele, despertando ansiedade e curiosidade em quem assiste o filme. Na verdade, com exceção de duas ou três cenas em que vemos brevemente o funcionamento da cozinha, o filme inteiro é narrada a partir da ótica de Goreng.


A subjetividade da narração é extremamente relevante para a construção de uma realidade dúbia e metafórica, deixando claro que na composição da obra, mesmo que desagrade os mais objetivos, não importa saber o que é o poço, porque ele existe, quem o comanda, como e porque as pessoas vão parar lá, como é o mundo lá fora, se as pessoas realmente saem ao final de seu tempo, e a principal, se a menina existe, como ela sobrevivia, se ela chegou na administração, mudou alguma coisa.


Na verdade, o relevante do filme é a mensagem, um interessante exercício metalinguístico entre a conclusão do personagem principal e o sentido da obra.


Pensando em “O poço” e suas metáforas é rico enxergar que na discussão entre indivíduo e coletividade, o filme trata de aspectos sistêmicos das sociedade contemporâneas, mas ao mesmo tempo, dos impactos nos indivíduos a partir das situações materiais da existência. E talvez seja aí, que encontra-se a riqueza da obra, ao evitar os chavões e lugares comuns das dicotomias maniqueístas: capitalismo x socialismo ou ricos x pobres.


Particularmente, enquanto sistema, é relevante compreender que por mais que seja criado e gerido por humanos, o sistema se mantém e se reproduz por si mesmo, tornando as engrenagens que o movimenta, acessórios que não compreendem os impactos de suas ações, em uma crítica brutal a burocracia e a mediocridade de quem apenas segue ordens.


Este aspecto fica claro quando Imoguiri (Antonia San Juan), funcionária há 25 anos da administração decide entrar no poço ao descobrir que está com câncer para tentar mudar a realidade ali dentro, porém, percebemos que esta não sabia o que acontecia ali, nem mesmo tinha ciência sobre a quantidade de níveis existentes, ela simplesmente recrutava pessoas, sem saber para onde estava mandando.


Outro exemplo da incapacidade de enxergar a realidade do funcionamento do sistema, em um exercício de abstração por parte dos seus dirigentes, pode ser observado na cena em que o chefe da cozinha repreende durante cozinheiros por encontrar um cabelo na comida.


E falando em recrutamento, o filme apenas pincela o usa alienante da publicidade e enlouquecedor da sociedade de consumo, o primeiro pelo fato de Goreng ter sido voluntário ao poço com o intuito de parar de fumar e obter um certificado, ficando claro pela sua ingenuidade que não tinha ideia de onde estava entrando e o segundo pela história de como Trimagasi foi parar no poço.


Ainda, na análise sistêmica, não precisa realizar grandes esforços teleológicos para compreender que o filme retrata que recursos, no caso comida, existem para todos, o problema é que alguns tem muito, deixando os demais com pouco ou sem nada, em uma crítica urgente a desigualdade social.


Esta, sem sombra de dúvidas é uma das mensagens que mais dialoga conosco, uma vez que vivemos na 9ª economia mundial, porém, somos a 79ª distribuição de renda.

Outro aspecto abordado no filme é o indivíduo e suas ações dentro do sistema e como esses comportamentos mudam de acordo com o andar em que você acorda.


Assim, são valiosas as lições de Trimagasi sobre o individualismo na sociedade gerida pelo capitalismo selvagem, desde como os de cima não respondem e não se importam com os de baixo, como é necessário para se reafirmar enquanto mediano pisar no debaixo, em uma clara alusão a classe média e seu conservadorismo, como diante da necessidade somos capazes de coisas terríveis e como não importa a mudança de cenário ou realidade, continuamos carregando os preconceitos que já temos.


O aspecto do preconceito está presente quando Trimagasi questiona que ele matou um imigrante que não deveria estar ali, mas também, quando a dupla do andar cinco se recusa a ajudar Baharat (Emilio Buale Coka), considerando ele inferior, não apenas por estar em um nível inferior, mas por ser negro e religioso.


É simbólico que seja uma mulher, Miharu (Alexandra Masangkay), quem procura desesperadamente pelo filho, quando vivemos em uma sociedade que isenta homens de responsabilidade parental, também, o reconhecimento como loucura e histeria do seu comportamento de buscar o filho e principalmente a violência sexual sofrida por esta, ainda que se trate de uma mulher forte diferentemente do estereótipo de vítima passiva.


De todas as metáforas que extraímos de “O Poço” ao compará-lo com a sociedade, tem uma situação que não se encaixa, a rápida ascensão e queda de níveis de forma aleatória e periódica.


E se o fato de na distopia espanhola alguém que se encontra nos níveis mais elevados poder estar nos mais inferiores no mês seguinte, poderia levar a consciência sobre a necessidade de racionar o alimento, vemos que o diretor nos mostra exatamente o oposto.


Durante a descida de Goreng e Baharat, alguém que se encontrava em um nível mais elevado, afirma que no mês anterior tinha passado fome e agora que ele estava ali, era seu direito se esbanjar. É enriquecedor o uso da palavra direito nessa passagem. É justamente por ter sofrido que oprimidos que acendem se tornam opressores, legitimando a opressão pelo uso inclusive, do Direito.


A mesma situação nos mostra também, que a solidariedade em cima, bem como, o comportamento civilizado são infinitamente mais fáceis do que quando se está lá embaixo, mostrando que todos somos capazes de atrocidades diante da necessidade e apontando os limites materiais da solidariedade. Ressaltando, porém, no relacionamento entre Goreng e Miharu, que solidariedade pode gerar solidariedade.


Outro foco para analisar a obra é, uma vez compreendida as mazelas da desigualdade e do individualismo, como agir para mudar e o filme retrata várias soluções simplistas que existem na nossa realidade e os seus problemas.


Desde a pessoa que nunca viveu a falta de recursos, mas que do alto de seu pedestal acredita que explicando o que o outro vive e pedindo consciência de todos conseguirá mudar alguma coisa. Ainda, nos mostra que soluções radicais que eliminam o diálogo, são incapazes de mudar as consciências e perdem a sua própria finalidade.


Ao final, ao contrário do desejado por parte dos espectadores, a obra não realiza aquilo que critica, ao não apresentar uma solução simples para uma situação complexa, deixando apenas uma mensagem de esperança que pode ser lida da forma que o espectador desejar.

Eu entendi que o motivo de não importar o mensageiro e o método, mas apenas a mensagem e a mensagem ser uma criança intacta, é que a mudança não vai vir de nós viciados na lógica do sistema, mas sim, de futuras gerações que podem crescer com outros valores, mostrando que é apenas através da educação que podemos mudar o mundo, mas talvez, assim como todos, eu tenho enxergado aquilo que desejava, uma vez que concordo em gênero, número e grau com essa perspectiva.


Sobre os aspectos práticos, já li que a criança estava bem porque a mãe levava comida todo mês, que a criança nunca existiu e Goreng já estava morto quando o final aconteceu, já li interpretação religiosa, comparando Goreng com o Messias, dentre outras.


Para quem está curioso, finalizo com os comentários do diretor do filme sobre o final:


“Isso (se a mensagem será recebida) você deveria perguntar à sociedade. Cabe, na verdade, a todos nós. Depende, se queremos continuar sendo a espécie mais mesquinha que já pisou neste planeta, ou…” - entrevista ao site americano Collider.


“Certamente achamos que deve haver uma melhor distribuição da riqueza, mas o filme não é estritamente sobre o capitalismo. Pode haver uma crítica ao capitalismo desde o início, mas mostramos que, assim que Goreng e Baharat experimentam o socialismo para convencer os outros prisioneiros a compartilharem de boa vontade sua comida, eles acabam matando metade das pessoas que pretendem ajudar (...) No final, o problema surge quando você tenta exigir a colaboração de todos, e você vê que não há grandes conquistas até o desfecho. Goreng faz o que ele se propôs a fazer ao trazer a panna cotta e a criança para o nível mais baixo. Mas ele não mudou de ideia sobre compartilhar a comida. Para mim, esse nível mais baixo não existe. Goreng está morto antes de ele chegar, e essa é apenas sua interpretação do que ele sentiu que tinha que fazer” - entrevista ao Digital spy.


Abraços,

Rafaela L.


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