• Patrícia e Rafaela

CRÍTICA: Os Miseráveis (2019)

Com o título da obra de Victor Hugo, Os Miseráveis retrata conflitos e tensões vividas pelos “miseráveis” da e na Paris dos dias atuais


O filme que dividiu com “Bacurau” o Prêmio do Júri no Festival de Cannes em 2019, apresenta um retrato vívido e meticuloso da periferia de Paris. E da mesma forma que o brasileiro desmistifica a representação do interior do nordeste ao construir uma narrativa não caricata, o francês demonstra a existência de conflitos sociais desencadeados pela marginalização de excluídos, em meio a geralmente romantizada Paris. Porém, se em "Bacurau" os excluídos se insurgem contra ameaças estrangeiras, em “Os Miseráveis” os excluídos são os imigrantes. Um reflexo histórico das diferenças entre colonizados e colonizadores.

Baseado no curta metragem homônimo de 2017, o diretor e co-roteirista, Ladj Ly, expande os temas tratados anteriormente. Situado em meio a copa do mundo de 2018 e inspirado nos conflitos que marcaram a cidade em 2005, Lyn constrói uma história envolvente, instigante e angustiante que se passa em aproximadamente 24 horas no bairro Gavroche nos arredores de Paris.


Já nos momentos iniciais somos apresentados as multidões de tomaram conta das ruas de Paris para assistir a seleção nacional, especialmente, o seu astro Mbappé, na copa de mundo de 2018. Este momento, nos situa temporalmente na narrativa e simbolicamente, ao apresentar a diversidade étnica-cultural presente na capital francesa em um momento de alegria e esperança, considerando os conflitos que virão na sequência, nos remete as mesmas ruas, tomadas pela mesma diversidade, porém, em angústia, revolta e indignação, em alusão aos conflitos vivenciados na cidade em 2005.


No longa acompanhamos o primeiro dia de patrulha do recém transferido policial Stéphane (Damien Bonnard). A equipe é composta também, pelo arrogante, autoritário e preconceituoso Chris (Alexis Manenti) e pelo belo e boa praça, levemente irresponsável Gwada (Djibril Zonga). É interessante e intenso o recurso narrativo de nos apresentar o bairro e suas figuras chaves para o desenrolar da trama a partir do conhecimento desses elementos pelo policial novato.


A utilização dessa perspectiva nos permite conhecer aquela comunidade a partir de uma lente, com muita bagagem, dos policiais. Nesse sentido, não apenas enxergamos a carga da marginalização e estigmatização daquela comunidade, como também, vivenciamos agressões e abusos em um primeiro momento, praticadas pelo policial Chris, com grande relevância para a conivência de Gwada e indignação moralista de Stéphane. Percebemos também, que os policiais conhecem as pessoas e os crimes costumeiros e cotidianos, relevando os esquemas de organizações próprios de comunidades que vivem a margem do Estado e agindo como mediadores e apaziguadores no local.

O problema dessa construção narrativa, é a falsa sensação de que os excluídos e marginalizados ganham voz com a projeção, de certa forma criamos vínculos e conexões com os policiais que não experimentamos com os moradores do local, uma vez que suas aparições e interações além de pequenas ocorrem pela lente do policial.


Porém, da mesma construção narrativa que decorre o problema comentado, é que surge um dos maiores trunfos do longa, a ausência de maniqueísmos. De certa forma, a própria ação policial já reproduz o asco para com os personagens e simpatia por aqueles que sofrem, assim, ao mostrar que os policiais também são massacrados por um sistema que coloca miseráveis em conflito com miseráveis, a contribuição para uma representação realista dos conflitos sociais é muito mais rica.


Méritos do diretor que foi hábil ao construir um ritmo frenético, construindo uma ficção com aspecto documental, usando e abusando de conversas em movimento no carro de polícia, alternando com belos planos abertos da cidade, diga-se de passagem tudo acompanhado pela bela fotografia que se apóia no uso de cores vividas, nos apresentando uma série de personagens e eventos em um curto espaço de tempo.


Fazendo inveja a muitos filmes ação, o longa é capaz de prender a atenção de seu espectador que não vivencia a passagem do tempo em seus 100 e poucos minutos. E se na passagem de um dia para o outro o ritmo desacelera, temos em contrapartida um momento rico no desenvolvimento dos personagens que de alguma forma será relevante para as sensações vivenciadas no terceiro ato. E que terceiro ato, uma grande reviravolta, com um final aberto significativo que não comentarei mais a fundo sob risco de entregar algum spoiler.

Outra questão relevante para pensar o filme e seus reflexos na discussão da brutalidade policial, é a relevância de uma policial não militarizada. Na narrativa o jovem Issa (Issa Perica) sobrevive porque era uma bala de borracha, talvez se no Brasil fossem balas de borracha, não teríamos tantas mortes de jovens negros “acidentais” nas favelas brasileiras.


"Os Miseráveis", que empresta o título da consagrada obra de Victor Hugo, não reproduz os conflitos dos século XIX vivenciados no romance do célebre escritor Francês, mas os atualiza, apresentando os excluídos e marginalizados, os miseráveis, da França nos dias atuais. E tal obra não poderia ser mais relevante diante do crescimento da extrema direita, neonazismo e xenofobia em países europeus.


Beijos, Rafaela L.


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