CRÍTICA: Midsommar

À luz do dia, o novo Terror psicológico de Ari Aster, mais do que causar medo, repulsa e angústia, faz refletir sobre relacionamento, perda e superação O medo é um elemento riquíssimo da psique humana, com origens sócio-culturais, o que é aterrorizante para um pode não ser para o outro. De certa forma, um sentimento terrível e magistral, capaz de nos paralisar e ao mesmo tempo sinalizar perigo, sendo essencial para a sobrevivência humana. Quando falamos que a sétima arte reflete a vida, no caso do terror, isso quer dizer, a reprodução daquilo que preferimos não pensar, sentir ou mesmo refletir. A espetacularização, do que nos causa medo, anseio, angústia, repulsa deveria nos causar ojeriza, mas ao contrário, nos fascina e encanta estar horrorizado, e talvez seja por isso que o terror, com todos os seus sub gêneros e movimentos, é tão cultuado e antigo na produção artística. E se a popularização dos filmes de terror é algo positivo, o reflexo na produção cinematográfica mainstreaming carrega seus próprios problemas. O uso de técnicas de susto como jumpscare sem contexto no roteiro, com o único intuito de produzir clichês capazes de nos fazer pular na cadeira e cobrir os olhos com as almofadas mais próximas, esvaziou aquilo que o terror pode ter de mais incrível, usar de situações absurdas para a partir da exposição de medos, trabalhar sentimentos e relações profundas e complexas que acompanha a nossa vida. E assim, é revigorante observar a onda de filmes que surgiram com diretores como Jordan Peele, Jennifer Kent, Robert Eggers e Ari Aster que desconstrói aquilo que tipicamente esperamos em um filme de terror. Intitulados por alguns como pós terror, sendo para outros excelentes exemplares de terror psicológico, filmes como O Babadook, A Bruxa, Hereditário, Corra!, Nós, The Nightingale, O Farol, Um lugar silencioso, Ao cair da noite, e Midsommar (dentre outros) marcam um ponto de virada na forma de fazer horror. Ari Aster já demonstrava em Hereditário uma capacidade de utilizar de forma peculiar da fotografia, design de arte, trilha sonora e edição de som para construir uma narrativa diferente com alta capacidade de gerar angústia no espectador, mas em Midsommar, o jovem diretor consegue dar um passo além, trazendo esses mesmos elementos para um terror feito à luz do dia. E se em Hereditário, o diretor ainda mantinha alguns elementos esperados no terror tradicional, em Midsommar a desconstrução é tão grande que gera a sensação de que o filme não é de terror, que na verdade não tem como escolher um gênero para defini-lo, a única certeza que você tem ao terminar Midsommar é o choque e a repulsa. No longa, lançado em 2019, acompanhamos Dani (Florence Pugh) uma jovem com seus próprios traumas e problemas que namora Christian (Jack Reynor) um estudante de antropologia. A história se desenvolve quando o casal, acompanha três amigos de Christian, para assistir um solstício de verão na Suécia. Ao serem confrontados com rituais pagãos, o que era para ser uma imersão cultural para aprendizado pode se transformar em um grande pesadelo. E na linha do que comentei sobre a visão do diretor, a quase total ausência de close, o uso de planos abertos e simétricos, bem como, a atenção aos mínimos detalhes, todos carregados de significados são alguns exemplos da narrativa em Midsommar. Dentre outras cenas poderia citar uma conversa entre Dani e Christian, quando percebemos que a relação não está tão bem, vemos Dani sentada enquanto Christian próximo a porta aparece refletido no espelho, mostrando como apesar de perto ambos estão tão distante. Em outra cena, enquanto Dani fica agitada e respira rápido e vai se acalmando, a câmera balança no ritmo da sua respiração acalmando com Dani e nos inserindo naquilo que a personagem está sentindo. Podemos citar ainda, o elemento simbólico do uso das cores, enquanto na primeira parte, antes da viagem, o uso de cores escuras e sóbrias demonstram as aflições da personagem principal, a claridade excessiva, as cores calmas e alegres da natureza, já na suécia, trazem um ar de libertação e felicidade que de certa forma a personagem começa a sentir ao chegar no local. É fácil perceber que na maioria dos filmes de terror, o próprio escuro, é utilizado para nos causar medo, afinal quem nunca teve medo do escuro. E assim, a proposta de fazer um filme de terror, praticamente gravado apenas sobre forte luz solar é diferente e desafiador. De certa forma, o ambiente escolhido pelo cineasta, com aquela aura hippie, em meio a natureza traz conforto e calma, o que torna mais estressante, quando aquela segurança inicial nos é retirada, intensificando o desconforto que nos acompanha ao longo de boa parte da projeção. Midsommar, pode não te oferecer sustos gratuitos, talvez não te cause tanto medo, fugindo daquilo que é esperado, Ari Aster entrega um filme inteligente, grotesco e revoltante que te faz confrontar questões profundas sobre relacionamento e separação, luto e superação. Talvez, não tenha uma premissa tão original, mas certamente, a forma como a narrativa aparentemente manjada é construída, torna assistir Midsommar, uma experiência única. Disponível por streaming no Prime Vídeo! Beijos, Rafaela L.

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