CRÍTICA: Oitava série

Retrato de uma geração que naturaliza o constante uso da tecnologia, intensificando a solidão e a ansiedade ao se relacionar no mundo real É muito interessante como quando somos adolescentes sentimos que o mundo não nos compreende e quando nos tornamos adultos banalizamos os sentimentos e conflitos vividos por adolescentes. Caracterizado como um período de transição e descoberta, na adolescência o sentimento de pertencimento é essencial e as pressões e incertezas sobre quem se é podem ser angustiantes. Muitos filmes foram feitos retratando esse período, desde aqueles que reforçam estereótipos e preconceitos até os que buscam desconstruí-los, problematizando a intensidade da fase de descoberta. Porém, poucos são os filmes que apresentam adolescentes com cara de adolescente, com corpo em desenvolvimento, com espinha na cara e uma sensação de que nada está certo. Por isso, a genialidade de “Oitava série” é apresentar de forma autêntica e sensível a adolescência tal como ela é. Sendo muito especial também, a forma como retrata as inseguranças, pressões e dificuldades enfrentadas por jovens em um mundo cada vez mais tecnológico. “Oitava série” estreou no Festival de Sundance em 2018 onde foi ovacionado. A obra é o primeiro trabalho de direção e roteiro do jovem cineasta Bo Burnham que começou sua carreira como Youtuber e comediante. O filme foi lançado pela produtora A24 (e aqui cabe um parênteses para comentar que muitos dos melhores filmes que assisti nos últimos anos foram produções da A24, com certeza vale a pena conferir seus lançamentos) e constituiu sucesso de crítica e público com múltiplas nomeações em premiações. Na história, acompanhamos Kayla (Elsie Fisher), uma jovem que passa pela ultima semana da oitava série. Kayla é tímida, quase invisível na escola, tem uma complicada relação com seu pai com quem praticamente não conversa, porém, em seu canal no Youtube, apresenta uma personalidade completamente diferente, oferecendo conselhos sobre a importância de se aceitar e de ousar na sua idade, conselhos que com certeza servem para a própria Kayla. É muito rico como a tecnologia é inserida na obra de forma natural, a geração de Kayla cresceu em meio a um mundo tecnológico e as interações sociais para eles ocorrem em grande parte de forma virtual. E aqui é particularmente interessante a escolha do diretor de alternar as imagens do que seria assistir os vídeos de Kayla no youtube com a filmagem do filme em si, utilizando o quarto da adolescente, seu refúgio, como principal espaço de construção da história, o que apenas reforça o isolamento de alguém que só quer pertencer a um grupo. E se o roteiro é rico, certamente é a atuação da jovem Elsie Fisher o aspecto mais brilhante da obra. A atriz consegue permear muito bem entre a jovem que tenta ser segura e bem resolvida atrás das câmeras, mas que não sabe se relacionar no mundo real, o retrato da timidez da jovem e do desconforto consigo mesma é incrível. A profundidade do retrato de um período difícil na vida de uma menina de 13/14 anos é sensacional no filme, abordando questões sobre ansiedade, ditadura da beleza, assédio e amadurecimento precoce de meninas, descoberta da sexualidade, mas especialmente, a completa sensação de vazio e insatisfação com sua própria vida e imagem que nunca se igualam a falsa perfeição das “digital influencers”. Um belíssimo filme, especialmente pela sinceridade de sua narrativa e força de suas interpretações. Beijos, Rafaela L.

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