CRÍTICA: Retrato de uma jovem em chamas

Mais do que um retrato de Héloïse, o retrato da jovem em chamas, é o interior, nu e cru de uma mulher presa a um papel social previamente estipulado, sem controle sobre suas ações, seu corpo e sua vida, ou seja, de toda mulher que vive(u) em uma sociedade patriarcal Premiado em Cannes, indicado ao Bafta e ao Globo de Ouro, o filme Francês escrito e dirigido por Céline Sciamma, belamente fotografado por Claire Mathon e intensamente interpretado por Noémie Merlant, Adèle Haenel e Luàna Bajrami é uma singela e impactante narrativa sobre amor, desejos, sonhos, revoltas e conformidades com papéis que se espera de mulheres em uma sociedade masculina. O longa, que se passa no século XVIII, narra o desenvolvimento da relação entre a pintora Marianne (Noémie Merlant) e Héloïse (Adèle Haenel), filha de uma Condessa que contrata Marianne em segredo para pintar a jovem. O intuito da Condessa é enviar o quadro para um possível pretendente que se casara se aprovar a aparência da moça. Assim, a pintora se passa por alguém contratada para servir de companhia para caminhadas, uma vez que Héloïse não deseja a pintura por não desejar o casamento, e a noite, com os detalhes que recorda, Marianne pinta o retrato encomendado. Antes de mais nada, é impactante como a sensibilidade presente em todos os detalhes, pensados e expressados a partir, pelo e para o feminino é calma, forte, vulnerável, delicada e intensa. Mais do que um retrato de Héloïse, o retrato da jovem em chamas é o interior, nu e cru de uma mulher presa a um papel social previamente estipulado a ela, sem controle sobre suas ações, seu corpo e sua vida. É impressionante como a mesma harmonia que sentimos na relação das personagens que conduzem a narrativa, está presente nos elementos que compõe o filme, desde a fotografia, a direção de arte, o figurino e o uso do som, todos contribuem para o andamento da narrativa e constituem parte da mensagem de sua idealizadora. Nesse sentido, o uso da chama, presente ao longo da narrativa, compõe o belo, o som da angustia e da luz ou sua ausência, nos ajudando a em meio a lenta narrativa, vislumbrar a construção comedida no exterior dessas mulheres e ao mesmo tempo, sentir o turbilhão de emoções devidamente sufocadas em seus interiores. E se conseguimos sentir tanto, adentrar em um universo feminino, é pela ausência de homens ao longo de praticamente todo filme, se conseguimos vislumbrar quem são essas mulheres por debaixo das várias camadas de quem elas devem ser, é porque o ambiente construído, sem homens, propicia, segurança, familiaridade, solidariedade e especialmente, aquilo que todas mais desejam, liberdade (mesmo que extremamente temporária). Os elogios tecidos acima, em relação aos aspectos técnicos do longa, foram feitos pela capacidade de em sons e imagens transmitir a profundidade do roteiro, esse sim, elemento central para o encantamento que o filme nos causa. A lenta, precisa e complexa construção das personagens, o tempo para a proximidade, para o desenvolvimento das relações, a profundidade de diálogos tão curtos e as várias formas de amor, solidariedade e amizade que se constroem são genuinamente verdadeiros e talvez por isso tão desesperador. Para ilustrar, poderia falar da conversa sobre ausência do direito de pintar homens nus, como forma de limitar o desenvolvimento da arte realizada por mulheres, pois em uma sociedade masculina os grandes temas, como expresso por Marianne, são masculinos. Poderia também comentar o destino da irmã de Héloïse e a sua frase sobre o porquê preferia o convento. Talvez, comentar sobre o apoio imediato ao aborto e os elementos que compõe a cena da sua realização. Ainda, poderia arguir a respeito da conversa sensacional sobre o conto de Orfeu e Euridice que retrata de certa forma o sentimento das protagonistas, da poeta que sabe que viverá da memória, à que em completo desespero contempla todas as possibilidades que evitem o cumprimento de seu destino (papel social a ela imposto). Também, poderia lembrar da cena da fogueira, com o som do fogo queimando, da música que faz contemplar a impossibilidade de fugir daquilo que lhe espera e delas se espera e as emoções fortíssimas transmitidas pela troca de olhares entre as protagonistas. Mas acredito que por mais brilhantes que sejam essas passagens, é o todo, cada pequeno detalhe do filme que nos faz contemplar a dicotomia (exposta na Héloïse do primeiro quadro e do segundo) do feminino internalizado e escondido ao qual vislumbramos naqueles momentos, e aquilo que se externaliza, no formato esperado, recatada, comedida exposta ao serviço e prazer dos interesses masculinos. Retrato de uma jovem em chamas é uma obra prima, com uma sensibilidade artística que raramente se encontra, sem sombra de dúvidas já se tornou um dos meus filmes favoritos de todos os tempos e o que mais me impactou entre os lançamentos de 2019. Beijos, Rafaela L.

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